Por Dra. Tatiane Chagas, ESPECIALISTA EM DESENVOLVIMENTO INFANTIL
21 de setembro: uma data de luta e reivindicação
No último dia 21 de setembro, o Brasil marcou o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. A data não nasceu em gabinete. Foi escolhida em 1982 pelo próprio movimento das pessoas com deficiência, que queria um dia de visibilidade e reivindicação, e só em 2005 virou lei federal, a Lei nº 11.133. A proximidade com a primavera e com o Dia da Árvore não é coincidência: a ideia era falar de renovação e de uma cidadania que ainda precisa florescer. É por isso que muitas campanhas chamam este mês de Setembro Verde.
Chamo atenção para uma palavra no nome da data: luta. Não é dia de homenagem, de post bonito ou de flor na mesa. É dia de lembrar que direitos garantidos no papel ainda esbarram, todos os dias, em calçadas quebradas, em salas de aula sem apoio e em serviços de saúde que não sabem acolher. Por isso, o mês inteiro merece essa conversa.
Os números que não podemos ignorar
O Censo 2022, divulgado pelo IBGE em 2025, mostrou que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais. No Nordeste, a proporção é ainda maior: todos os estados da região ficaram acima da média nacional. Só na Bahia, são cerca de 1,09 milhão de pessoas. Não são estatísticas distantes. São vizinhos, colegas de trabalho, alunos, pacientes, gente da nossa própria família.
O mesmo levantamento trouxe, pela primeira vez, o número de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista: 2,4 milhões de brasileiros. Vale lembrar que, desde 2012, a pessoa com autismo é reconhecida como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais (Lei nº 12.764). Esse dado conversa diretamente com o que vejo no consultório e na sala de aula: a procura cresceu, as famílias estão mais atentas, mas a rede de atendimento não acompanhou esse ritmo.
Comunicação também é acessibilidade

Como especialista em desenvolvimento infantil, trabalho todos os dias com algo que muita gente só percebe quando falta: a possibilidade de se comunicar. Pense numa criança que ainda não fala, num adulto que perdeu a fala depois de um AVC, numa pessoa surda que chega a uma unidade de saúde e não encontra intérprete. Em todos esses casos, a barreira não está só na pessoa. Está no ambiente, que não oferece outro caminho.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) é clara: acessibilidade inclui a comunicação. Isso significa Libras, legendas, audiodescrição, pranchas e recursos de comunicação alternativa, linguagem simples em documentos e, principalmente, profissionais preparados para escutar de outras formas. Não é favor. É direito.
Quanto mais cedo, melhor
Na minha prática com intervenção precoce, repito sempre às famílias: não esperem o tempo da criança. E isso vale para todas as deficiências, não só para as que envolvem a fala.
O bebê que não se assusta com barulhos fortes ou não se vira para a voz da mãe precisa de avaliação auditiva. O que não fixa o olhar no rosto de quem o segura, ou não acompanha objetos com os olhos, precisa ser visto pelo oftalmologista. Demora para sustentar a cabeça, sentar ou engatinhar, ou um corpo muito rígido ou muito molinho, pedem avaliação neurológica e motora. E a criança que não responde ao nome, não aponta, não balbucia, não começa a falar no tempo esperado ou tem dificuldade para compreender e aprender merece investigação para deficiência intelectual, autismo e outras condições do neurodesenvolvimento.
Os testes do pezinho, da orelhinha e do olhinho estão entre os primeiros cuidados com o recém-nascido e não devem ser dispensados. Mas o acompanhamento não termina na maternidade. Algumas deficiências só aparecem depois, após uma meningite, uma internação prolongada ou um acidente. O famoso “cada criança tem seu tempo” é verdadeiro, mas não pode virar desculpa para adiar um olhar profissional. Os primeiros anos de vida são uma janela preciosa para o desenvolvimento, e o que se faz nesse período repercute pela vida inteira.
E a família precisa estar no centro desse processo, seja qual for a deficiência. De pouco adianta uma hora de terapia por semana se a rotina da casa não for considerada. A criança com deficiência física precisa de adaptações para brincar, comer e se deslocar. A criança surda precisa de uma família que se abra à Libras ou aos recursos auditivos indicados. A criança cega precisa de um ambiente que convide ao toque, ao som e à exploração. A criança com deficiência intelectual ou com autismo precisa de estímulos que façam sentido no dia a dia dela. Pais e cuidadores bem orientados são os maiores aliados de qualquer intervenção.
E Salvador com isso?

Nossa cidade é linda, mas não é fácil para quem usa cadeira de rodas, anda de muleta, tem baixa visão ou precisa empurrar o carrinho de um filho com deficiência. Ladeiras, calçadas irregulares e transporte nem sempre adaptado fazem parte da rotina de muita gente. Nas escolas, ainda ouço relatos de famílias que precisam brigar por um profissional de apoio. Na saúde, a espera por terapias pode levar meses.
Nada disso se resolve com data comemorativa. Resolve-se com política pública, fiscalização, formação de profissionais e mudança de atitude de cada um de nós.
O que cada um pode fazer
Pergunte antes de ajudar e aceite quando a resposta for não. Fale diretamente com a pessoa com deficiência, e não com o acompanhante. Respeite vagas e assentos reservados. Na escola dos seus filhos, pergunte como anda a inclusão. No trabalho, questione se o ambiente é acessível para todos. E, acima de tudo, lembre do lema que o movimento carrega há décadas: “nada sobre nós sem nós”. Nenhuma decisão sobre a vida das pessoas com deficiência deve ser tomada sem a participação delas.
O 21 de setembro passou. A luta, não. Que este mês sirva de lembrete, e que o compromisso dure o ano inteiro.
Sobre a autora
Tatiane Chagas é especialista em Desenvolvimento Infantil e Intervenção Precoce, com ênfase no Modelo Centrado na Família. É CEO da Estímulos Academy e Consultoria, professora de pós-graduação em instituições como UVA e IDE e coautora do livro “Guia prático interdisciplinar para intervenção precoce no autismo” (Literare Books International).



