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    Executivo da Nestlé contratou torturador na ditadura militar

    REDAÇÃOPor REDAÇÃO10/04/20269 minutos de leitura
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    O apoio empresarial à ditadura no Brasil começa a ser revelado. Uma das empresas que deixou pistas dos vínculos com o regime de opressão é a Nestlé.ebcebc

    O episódio 2, chamado Caixa da segunda temporada do podcast Perdas e Danos conta a ligação entre a multinacional suíça e os porões da ditadura no Brasil.

    Comprovantes

    Apesar da atuação discreta, a gigante da indústria alimentícia deixou pistas do apoio dado ao regime de opressão no Brasil.

    Como as contribuições feitas em nome da empresa, pelo executivo Gualter Mano, para o IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, um think tank conservador formado por empresários e militares e que ajudou a preparar o terreno para o golpe de 1964.

    O Arquivo Nacional guarda os comprovantes das contribuições da Nestlé para o clube golpista.


    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Registros das contribuições do então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, para o IPES.  Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação
    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Registros das contribuições do então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, para o IPES.  Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

    Registros das contribuições do então presidente da Nestlé Brasil Gualter Mano, para o IPES. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

    Mas há outros indícios deixados pela empresa que revelam as relações com o regime opressor e que ligam a multinacional a OBAN, a Operação Bandeirantes, o maior aparato de tortura e morte do regime militar, uma estrutura clandestina que serviu de laboratório para implantação dos DOI-Codi pelo país afora. 

    A participação da Nestlé está no registrada na página 330 do Volume 2 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

    “Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo (…) durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban (…) Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light”.

    O executivo versátil

    Um elo que até agora era pouco visível para os brasileiros tem nome e sobrenome: Oswaldo Ballarin. Pouco mais de um ano depois do jantar que garantiu o financiamento do aparato de tortura, Oswaldo Ballarin era o nome da Nestlé entre os empresários homenageados pelo chefe do Estado-Maior do II Exército, general Ernani Ayrosa, no final de 1970, pelo apoio à repressão. 


    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Frame: Nestle Boycott/Youtube
    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Frame: Nestle Boycott/Youtube

     Ballarin tenta isentar a Nestlé pela morte de bebês por causa do uso de leite em pó, durante audiência no Senado dos Estados Unidos, em 1978. Frame: Nestle Boycott/Youtube

    Ballarin fez carreira na Nestlé. Começou na empresa ainda jovem e chegou ao cargo de presidente executivo entre 1971 e 1978. O brasileiro tinha tanta influência na Nestlé que foi a pessoa escolhida para representar a multinacional numa audiência pública que aconteceu em 1978, no Senado dos Estados Unidos, justamente para investigar a agressiva estratégia de marketing para promoção do leite em pó para bebês.

    A facilidade de trânsito de Oswaldo Ballarin pelos governos militares garantiu a ele postos elevados e simultâneos em outra multinacional suíça. Ao mesmo tempo que ocupava o cargo de presidente executivo da Nestlé, ele também era presidente da Brown Boveri, entre 1971 e 1979. 

    A Brown Boveri (hoje, Asea Brown Boveri – ABB) é uma empresa de automação e eletrificação que atuou em grandes obras no Brasil, do Bondinho do Pão de Açúcar, no começo do século passado, ao novíssimo polo de produção de hidrogênio verde em Pecém (CE), passando pela maior obra de engenharia dos militares, a Usina de Itaipu.

    A empresa integrou o CIEM, o Consórcio Itaipu Eletromecânico, um consórcio formado por empresas europeias, encabeçado pela Siemens, e que venceu a concorrência para a construção de Itaipu. O consórcio é alvo de denúncias de corrupção, pagamento de propinas e de burlar regras do contrato como a nacionalização da produção. 


    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Turbina geradora de Itaipu. Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação
    São Paulo (SP), 09/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Turbina geradora de Itaipu. Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé e da Brown Boveri contratou torturador como relações públicas. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação

    Turbina geradora de Itaipu: as turbinas foram fornecidas pelo consórcio CIEM, do qual a Brown Boveri fazia parte. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação

    CIA

    É na versão de executivo do setor elétrico que foi possível encontrar os vínculos mais fortes de Oswaldo Ballarin com os porões da ditadura militar no Brasil. Ele é acusado de ter contratado os serviços de agência de relações públicas de fachada, a CIA (Consultores Industriais Associados).

    Além de ter a mesma sigla do serviço de inteligência dos EUA, a CIA atuava, na verdade, na vigilância de trabalhadores, perseguição de desafetos e organizando vaquinhas para equipar os aparatos de tortura do Estado. 

    Quem desencavou essa história abrindo os arquivos da Brown Boveri, na Suíça, foi a pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne. 

    “Eles [o CIEM] tinham uma porcentagem das encomendas que tinham que pagar para o cartel [de eletricidade] para financiar a luta contra a oposição (…) eles chamavam Fundo de Luta Contra a Oposição, e foi aí que surgiu a questão da CIA”.

    Em meio à documentação a que teve acesso, estava a denúncia enviada por organizações de direitos humanos ao Conselho Federal Suíço, o governo central do país, em 20 de novembro de 1979.

    Um conjunto de 16 documentos mostrando as relações do CIEM com a CIA, batizada nos documentos como “serviços de organizações de tortura disfarçadas”, “esquadrões da morte” e “especialistas em tortura”.

    O diretor da CIA era Robert Lentz Plassing, expoente da extrema-direita, que organizava contribuições para o regime e é listado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade como uma das 377 pessoas responsáveis por torturas e assassinatos durante a ditadura.

    Plassing integrou o DOI-Codi do Rio de Janeiro, onde era chamado pelo nome de Samuca.

    Em setembro de 1979, Jean Ziegler, que ocupava uma vaga no Conselho Nacional Suíço foi explícito ao acusar Ballarin e a Brown Boveri, mas não esqueceu das relações do executivo com a Nestlé. 

    “Oswaldo Ballarin, executivo da Nestlé e atual presidente da Brown-Boveri em São Paulo, admitiu ter transferido regularmente e substancialmente fundos da empresa entre 1963 e 1978 para a empresa Consultores Industriais Associados. Oswaldo Ballarin (e a Brown-Boveri) são, portanto, culpados de cumplicidade em homicídio premeditado”. 

    Ballarin morreu em 1999 afirmando que sua relação com o Samuca do DOI-Codi era restrita às atividades de relações públicas da CIA.  

    Investimento garantido 

    Diferente da Brown Boveri, a Nestlé não permitiu o acesso de Gabriella Lima aos seus arquivos. 

    “Ela me recusou o acesso três vezes aos arquivos”, disse a pesquisadora.

    Mas os números mostram que a empresa tem motivos para comemorar o período de opressão. 

    De 1971 a 1975, a rentabilidade da Nestlé no Brasil praticamente dobrou. Em pleno milagre econômico, o crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o IBGE, estava na casa dos 9% ao ano.

    O que para os padrões atuais é bem alto. Mas o faturamento da Nestlé conseguia ser ainda maior: na casa dos 12%, segundo levantamento feito por Antoinette Fredericq para o Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.

    Dumping leite em pó

    Enquanto Ballarin era questionado no Senado dos EUA pela política da Nestlé de promover leite em pó, atrapalhando o aleitamento materno, aqui no Brasil o executivo tinha carta branca para dar “aulas” nas faculdades de medicina aos futuros médicos. 

    Marina Rea, pesquisadora e uma das fundadoras da Rede Internacional pelo Direito de Amamentar (Ibfan), assistiu alguma dessas “aulas”. 

    “O Ballarin deu aula na minha faculdade [a USP] sobre fórmulas infantis. Ele não era médico. Era um cara que financiava reuniões e, em troca, convidavam ele para lançar os novos produtos: ‘novas fórmulas que vamos lançar’. Terrível. Eu saí da faculdade sabendo mais prescrever fórmula infantil do que orientar o aleitamento materno.” 

    Em 1974, uma organização social da Inglaterra chamada War on Want publicou um relatório batizado como The Baby Killer (em tradução livre, Assassino de Bebês). E acusou as indústrias, começando pela Nestlé, de provocar a morte de crianças em países pobres.

    Marina Rea explica qual era a estratégia da empresa no Brasil.

    “A Nestlé utilizou promoções comerciais bastante efetivas no começo da vida. Uma fase muito grave, do ponto de vista fisiológico, para a amamentação ir pra frente ou não. As empresas sabem disso. No Brasil, o mais prevalente foi a entrada da Nestlé via dumping de leite em pó. Já que se você não disponibiliza, é claro que a mãe nem vai conhecer. E a outra forma foi entrar nas maternidades, buscando nos médicos um parceiro e entrar nas universidades era ótimo para isso”. 

    Hoje em dia, a empresa segue metida em controvérsia.

    Em 2024, uma ONG suíça, a Public Eye, mostrou que produtos que a marca oferece para as crianças de países pobres são mais açucarados que os que vão para as crianças ricas, incluindo o Brasil.  

    Outro lado

    Sobre as denúncias envolvendo o consórcio CIEM, a direção da Itaipu informou em nota:

    “A execução do projeto teve início em 1975, em um contexto marcado pela Ditadura Militar Brasileira, quando práticas autoritárias resultaram na sonegação de informações e em violações à dignidade humana e aos direitos fundamentais (…)  Atualmente, a Itaipu desenvolve iniciativas voltadas à promoção dos direitos humanos, com foco na igualdade de gênero, no fortalecimento de capacidades locais e na inserção dessas perspectivas na educação, além de incentivar a participação de mulheres em espaços de liderança e no desenvolvimento comunitário.”

    A ABB, sobre as denúncias de corrupção e o financiamento da repressão, respondeu que “a Política de Direitos Humanos da ABB formaliza o compromisso da empresa e descreve a abordagem da ABB em relação à devida diligência em direitos humanos. Esperamos que nossos fornecedores respeitem os mesmos princípios e padrões internacionais de direitos humanos.  ABB adota uma política de tolerância zero em relação a comportamentos antiéticos, incluindo qualquer forma de suborno ou corrupção (…)”. 

    A respeito de ter apoiado a ditadura no Brasil, a Nestlé enviou a seguinte nota:

    “A Nestlé reconhece a importância de que esse período continue sendo debatido, dada sua relevância e impacto na sociedade. A empresa não compactua com práticas de repressão, discriminação ou violações de direitos humanos. A Nestlé reafirma seu compromisso com a democracia, com o respeito à diversidade de opiniões e com a promoção da liberdade de expressão, bem como com o respeito aos direitos de seus colaboradores, parceiros, consumidores e da sociedade em geral”.

    Questionada se, após 60 anos, a empresa estaria disposta a abrir os arquivos, a equipe do podcast não obteve resposta. 



    Fonte: EBC

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